
O Natal sempre foi para mim um momento de emoção. Eu não entendia bem o que ele significava, apenas percebia o movimento diferente em casa, no comportamento das pessoas, e ajudava a Mamãe a montar a árvore de Natal cheia de luzinhas para enfeitar nossa casa.
Sabia que ia ganhar presentes, víamos alguns parentes que não costumávamos ver no dia a dia, dormíamos tarde, e sabia que íamos jantar na casa de uma tia que eu gostava muito. Apesar disso tudo, sentia também certa tristeza. Não sei se é porque estudei em colégio de freira e sabia que Jesus nasceu no Natal, mas depois morreu. Para mim isso era muito triste.
Naquele tempo, tínhamos em casa como peça importante na sala de visitas, uma vitrola. Os discos eram poucos e um deles era de música de Natal. Ouvia mil vezes, mas sentia uma tristeza danada, era quase uma tortura. Algo que me elevava, mas também me punha para baixo.
Outra coisa tradicional, era que o Papai Noel, deixava em casa o presente esperado! No entanto, pedia ao meu pai que deixasse tocando na vitrola o disco de Natal para receber o Papai Noel. Mamãe e ele tinham a pachorra de fazer o seguinte: Depois de todos prontos para sair, papai colocava o disco na vitrola, deixava tocando e todos nós entravamos no carro, e quando chegava na esquina, ele ou a mamãe diziam que haviam esquecido algo. Papai dava marcha a ré, e....
E assim, passei anos da minha vida.
Hoje, quando ouço essa mesma música, me vem novamente a emoção de sempre. Porém, consigo definir a tristeza que eu sentia no ar – ela é a saudade do meu pai, do colo da minha mãe cheirosa e amorosa comigo. Da ilusão. Da certeza do presente escolhido, da festa que só existe quando somos criança.




